::Texto-dança::
Estou paralisada, estamos todos paralisados, perplexos perante os complexos building-trading-play-shopping-centers. To buy, to buy. Bye, bye!
Onde estarão as utopias?
Onde se compra se compra uma nova alma para essa velha raça humana? Pior que morrer de fome é viver com fome. Admirável! Cinco mil anos de civilização, conseguimos inventar a escrita e tecnologias de ponta porém esquecer o amor, a ética. Lembram-se da queda do Império Romano do Ocidente pelas invasões bérbaras? Eu vejo a queda do Império Norte Americano - milhões de miseráveis latinos caminhando em busca de um liquidificador, um personal computer, um cd-player, um l-i-q-u-i-d-i-f-i-c-a-d-o-r? Os africanos atravessando o estreito de Gibraltar,uma ponte humana, sedentos de civilização (?!), sedentos de museus... de Picassos, Van Goghs, de televisores. As cores aflitas de Van gogh alimentando as cores famintas africanas.
Talvez esse comboio-manada-matilha africano se arrisque a visitar a Capela Sistina. Lá encontrariam o Papa, que justo pop, proíbe a camisinha como método contraceptivo. Será a camisinha um instrumento de amor à vida? Não... Essa pandemia aidética é só mais uma manifestação à híbris humana. Então ela se faz por merecer. Que se submetam a Deus, ao Império Sacro-Romano, aos avalistas de Deus.
Duzentos anos de industrialização - duzentos anos, grão de areia na praia do tempo - duzentos anos de industrialização estão esgotando o planeta... Quanto tempo nos resta para inventar outro sistema?
Que não coisifique o homem.
Que não coisifique a vida.
A raça humana à deriva numa nau de loucos medievais pode descobrir que o horizonte é um abismo.
Leda Pereira
(texto retirado do livro "A dança dos encéfalos acesos" de Maíra Spanghero - Projeto Rumos Itaú Cultural, 2003.)
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