::Da cor do passado::
Saiu para sua caminhada diária. Tinha adquirido esse hábito há alguns meses, desde que perdera o emprego, como uma forma de ocupar o corpo e a mente. Durante a caminhada a passos largos e decididos, muitos pensamentos vinham à cabeça. Muitas idéias. Muitas lembranças. Inspirações.
Mas naquela tarde, sentiu uma inquietação ao sair de casa. Não saberia explicar, mas intuitivamente, ela sabia que seria diferente.
A chuva caía fininha. Ela andava, trajando suas roupas escuras, como de costume.
Sem perceber que os pingos tornavam-se mais espessos a cada minuto.
E ela gostava.
Sorria por dentro.
Tirou os óculos para sentir melhor cada gota que lhe escorria sobre o rosto.
Era como se a chuva pudesse lavar-lhe a alma. Como uma catarse. Uma purificação.
Na rua, olhos curiosos fitavam-na durante todo o percurso. Nos carros, nas lojas, nas calçadas. Os olhos a condenavam. Ela sabia. Sabia o que pensavam aquelas pessoas. Mas os olhares não a intimidavam. Pelo contrário, sentia-se bem ao parecer-lhes louca.
Ria por dentro.
A chuva fria aumentava. A roupa molhada colava no corpo. O cabelo perdia o volume seco, transformando-se num ralo cabelo molhado.
Somente ela e a chuva ocupavam a pista que costumava estar sempre cheia àquele horário.
Mas essa era uma tarde diferente.
Ela era única.
Na praça, a grama estava mais verde que de costume. Nenhuma criança chutando bola ou andando de patins.
Somente ela. Respiração ofegante de quem já andava há algum tempo. Coração acelerado.
Ritmo constante. Nem percebera que a chuva havia parado. Continuava em seus passos largos e rápidos.
Um vento forte mudava o rumo de seus pensamentos. Agora ela percebia que não sentia mais a chuva. Aos poucos, o vento e o calor do corpo secavam-lhe as roupas.
Uma voz quebrara seu silêncio. Pôde identificar o seu nome. Alguém chamava por ela.
Quem perturbava a sua tarde? Tinha acreditado ser uma anônima andando na chuva. Mas não. Agora não havia mais chuva e uma voz pronunciava seu nome.
-Letícia!
Ela olhava em direção ao som, mas não conseguia identificar o dono da voz. Lembrou-se de que tirara os óculos.
-Quem é? Estou sem óculos, não enxergo...
E ia caminhando em direção a ele. E ele, vinha em direção a ela.
Quando estavam a uma distância segura de sua miopia, não acreditava no que via.
Era ele. Depois de tanto tempo. Tantas cartas não respondidas, tantos "acasos" ignorados.
Era ele. Ele invadira aquela tarde que parecia ser só dela.
Ela já não sorria por dentro.
Conversaram quase como dois desconhecidos. Ele, nas suas roupas claras, ela, nas suas roupas escuras. Como estavam diferentes... Ele, contando de sua "nova vida", longe da noite e das pessoas que lhe faziam mal. Ela, apesar da serenidade conquistada nos últimos meses, continuava não conseguindo se mostrar para ele. Ouvia-o atentamente. Falava pouco. Não sabia como apagar esse escuro que havia ficado dentro dela. Desde aquele tempo...
Deram algumas voltas juntos, mal se olhavam, as mãos não paravam. Ela estava inquieta. Ele parecia em paz.
Resolveu ir embora quando percebeu que aquele encontro não os levaria a lugar algum. O passado não se apaga. Nem se revive.
Despediu-se. Queria um abraço, mas ele mantinha-se rígido à sua frente. Então encostou de leve seu rosto no dele e foi andando sem olhar para trás.
E a chuva engrossava novamente.
Dessa vez, não lhe lavava a alma. Passava despercebida por ela.
(Ou ela que passava despercebida pela chuva?)
Envolvida naquelas lembranças e com a sensação de que talvez nunca mais o veria.
E ela não ria. Não sorria. Ela chorava por dentro.
E lá, parecia mais escuro agora.
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