::Vc viu quem morreu?::
Então chego hoje na Graffo e me chega o "Sr. Leguminho", vulgo Xuxu, com uma cara de espanto:
-Vc viu quem morreu? Hilda Hilst!
Depois de quase ter um colapso nervoso devido não tanto à informação, mas ao tom em que ela foi dirigida a mim, exclamo um belo "Não acredito!" e sento em frente ao computador para "digerir" a notícia.
E assim foi o dia inteiro, para todo mundo que entrava, o Xuxu dava a notícia com esse seu "jeitinho meigo de ser".
Só depois do terceiro susto que consegui constatar o motivo da entonação do nosso querido jornalista: ele nem sabia quem era Hilda Hilst até ouvir a notícia.
Nem ele, nem o chefe, nem a outra jornalista. Precisou a Mi chegar para resolver a questão "quem-era-Hilda-Hilst".
Como assim?
Pessoas, leiam Hilda Hilst.
"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento."
"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."