terça-feira, 27 de abril de 2004

::O fim dos homens-cartaz::

Minhas idas ao centro da cidade são verdadeiras "visitas antropológicas" com direito a "observação participante", para usar os termos da minha queridíssima amiga futura antropóloga, Clá. (me desculpe se usei tudo errado viu, xuxu? só não uso o "devir" pq até hj não entendi oq é essa merda. hehe)

Então, da última vez que fui ao centro, mais especificamente, à região da Praça 7, fiz uma descoberta que me deixou um bocado triste:

Os homens-cartaz acabaram.

Como vamos explicar para nossos filhos, se é que teremos algum, o que eram os homens-cartaz que circulavam pelo centro da cidade? Como o responsável pelo fim do ofício pode acreditar que eles possam ser substituídos por blusecas amarelas com os escritos "vende-se ouro, compra-se ouro, corta-se o cabelo..."?

Agora nenhum designer malucão vai poder comparecer à Bienal de Design vestido de cartaz carregando a frase:
"Sou dezáiner. Faço logotipos e cartões pessoais".
Se ele quiser ser entendido pela nova leva de estudantes, terá que usar uma bluseca amarela horrorosa e mesmo assim corre o risco de não ser bem interpretado.

Que triste.

Os homens-cartaz acabaram.

sexta-feira, 23 de abril de 2004

::Abraço frouxo de tamanduá::

Não sei se é só comigo, mas moooorro de aflição daquelas pessoas que te cumprimentam com abraço "frouxo".
Tudo bem que em sua grande maioria essas pessoas são figuras que não têm intimidade pra me cumprimetar com um abraço, mas se ela já se dispôs a tal, que abrace direito, não?
(abre parênteses)
acabei de descobrir uma nova expressão no dicionário, e isso muda todo o rumo desse post:
abraço de tamanduá.: traição, deslealdade.
(fecha parênteses)
Então, a pessoa vem te cumprimentar, joga o corpo em sua direção, levanta os braços... vc corresponde com o mesmo gesto, e qdo vc acha que os gestos vão culminar num abraço sincero fica aquele "buraco" entre os corpos.
Será que todas as pessoas que me abraçam "frouxamente" são traidoras e desleais?
Prefiro acreditar que elas possam ser tímidas ou preguiçosas.
Bando de tamanduás.
Blergh.
::Breviário moral para iniciação à leitura::
(por Xico Sá, revista Bravo!, abril de 2004, p.114)

Abril, o mais cruel dos meses, como diz o barnabé encarregado das estatísticas sobre cheques sem fundos e outras promessas sem lastros. Mas pelo menos tem a Bienal do Livro em Sãoo Paulo, última oportunidade para iniciar novos leitores e pôr cabestro moral em outros recém-iniciados. Afinal de contas, um país se faz com homens e volumes de capas grossas.
E como são uns gabolas esses jovens leitores. Eles nos humilham - diante de nossas patroas sedentas de erudição - , a folhear o Finnegans Wake, O Aleph, o Rosa e tantos outros rizomas e grogotós. Mal saem das fraldas, esses bravateadores mirins já enxergam o mundo através dos oculozinhos da prepotência. Por isso é que o velho Brás Cubas maldizia a possibilidade de deixar o seu legado em cima desse chão.
Duvide sempre do caráter de um adulto que diz ter lido um clássico nos seus verdíssimos anos. Podemos estar diante de um carrasco, de um mentiroso dos mais épicos... ou de um maníaco refinado propriamente dito. A indumentária da retidão jamais se ajustará ao seu esqueleto, sempre impróprio ao corte & costura dos homens bons e aparentemente comuns.
"Dito isso, acreditamos ter dito tudo", como tingiam em seus papiros os respeitáveis senhores editorialistas de casa impressora secular da província de São Paulo. Cumpre-nos, todavia, completar o tanque no nosso breviário moral com algumas dicas até otimistas sobre o pendor literário precoce, resguardados, claro, todos os possíveis efeitos colaterais:
Escola de machos - A simples iniciação via Hemingway não assegura uma cota de testosterona até a madureza, mas faz tão bem para o crescimento quanto Calcigenol ou óleo de fígado de bacalhau. Vocês, pais e mestres, se orgulharão quando o pirralho sair por aí fisgando trutas, caçando pacas, tatus... mirando em rolas, codornas e juritis.
A importância de ler Wilde - A simples iniciação pelo inventor de Dorian Gray também não garante que o seu filho dê um homem sensível, um metrossexual, para usar a nomenclatura da moda. Mas é um grande começo.
O Fantasma de Canterville, para meninos e meninas, é o indicado à guisa do début.
Lição de anatomia - Moby Dick? Vai fazer muito bem. Seu filho crescerá generoso com as mulheres mais cheinhas, as botterinhas, e não cairá nessa fábula das passarelas ossudas e semi-áridas - coisa muito mais para baleia-cachorra do Vidas Secas do velho Graça.
Piedade de nós - Os miseráveis, de Victor Hugo, jamais. Muito menos os choramingas populistas de Charles Dickens. Seus filhos crescerão com peninha da humanidade, capazes de fundar uma ONG a cada bairro, achando que a caridade seja o remate de todos os males.
Campos & espaços - Mau sinal quando o pimpolho começa a trocar o lego pela poesia concreta, brinquedinhos que se combinam. Não há mamadeira bilaquina que dê jeito.
Vanguardeiros e malditos - São uns boçais estraga-homens. Mantenha-os fora do alcance das crianças. Eles estão para a literatura assim como os pipoqueiros que passam drogas - esses fabulosos sedutores! - estão para as portas dos colégios.
Catecismo e primeira comunhão - Se Deus não existe, tudo é permitido. Quer segurar o capetinha nas rédeas morais possíveis, aí incluídas as algemas forjadas no aço da culpa? Karamazov nele, como quem dá remédio forçado.
O medo diante da loba - Quer estragar sua filha e a vida dos futuros genros? Libere Virginia Woolf e Clarice Lispector logo na pré-adolescência. Aí teremos moças misteriosas, labirínticas, metalinguísticas, uns diabos arredias e estranhas diante do amor. Capazes de tudo. TPMs elípticas, menstruações de incomunicabilidades sem fim, coitados desses pobres e suas caras de maridos.

quarta-feira, 14 de abril de 2004

::É HOJE!::



Aniversário da Helguitcha na Obra!

Olha só o que vem por aí:
old acid
eletro
new rock
synth pop
industrial dance
jungle
rap
soul
rock

Tudo devidamente selecionado por Darctho, Daniel's e Vanessa.
E é só 3 reau!

Se eu fosse você, eu ia. =P

segunda-feira, 12 de abril de 2004

::Empolguei::



Ilustraçãozinha que fiz pra um flyer.
Não ficou bunitinha? =)

terça-feira, 6 de abril de 2004

teste links
::Quebrar os óculos estimula a criatividade::

Desde que quebrei a lente dos meus óculos na última quinta-feira-bêbada, tenho visto o mundo de outra forma.
Ando exercitando meus outros sentidos e, principalmente, a criatividade.
Ser míope nesse mundo cada vez mais visual (leia-se: pós-moderno-"carão") é realmente um problema.

Por um lado é até bom, vc não precisa parar pra cumprimentar todo mundo que conhece, não fica olhando em todos os espelhos por onde passa (mania de mulher), vc pode supor que aquele carinha que está vendo de longe seja gatinho e, como se não bastasse, ainda esteja te dando bola, pode até imaginar que aquele platônico de sempre anda olhando muito pra vc...

Mas aula de análise gráfica cega, realmente não dá.
Até tentei colar minha cara na projeção, mas não adiantou muito...
A professora lá, analisando os elementos visuais do campo compositivo das logomarcas, analisando tipografia, cores (ah, pelo menos cores eu distingo, aindas não sou daltônica), ilustrações... E eu tentando "realizar" [piada interna] as formas...
Tudo bem que as formas que realizei foram completamente diferentes das que ela mostrou, mas pelo menos estou exercitando minha criatividade.
O problema é a dor de cabeça depois de uma sessão "treinamento super intensivo: exercite a sua criatividade"...

Agora entendi tudo do meu sonho surreal.
Ando vendo um mundo surreal.
Literalmente.


segunda-feira, 5 de abril de 2004

::Sonho::

Um uno com cara de fusca que trocou o capô com cara de teto e virou um jipe.
Uma bolsa que não era minha mas que tinha coisas minhas dentro e estava comigo.
Um roubo surreal. (roubaram o uno com cara de fusca que virou jipe)
Um encontro surreal. (com aquele platônico de todas as noites)
Sorrisos.
Sensações boas.

Ainda bem que a gente pode sonhar. =)

sexta-feira, 2 de abril de 2004

::Não to boa::

O Buraco do Espelho
Arnaldo Antunes

O buraco do espelho está fechado
Agora eu tenho que ficar aqui
Com um olho aberto, outro acordado
No lado de lá onde eu caí
Pro lado de cá não tem acesso
Mesmo que me chamem pelo nome
Mesmo que admitam meu regresso
Toda vez que eu vou a porta some
A janela some na parede
A palavra de água se dissolve
Na palavra sede, a boca cede
Antes de falar, e não se ouve
Já tentei dormir a noite inteira
Quatro, cinco, seis da madrugada
Vou ficar ali nessa cadeira
Uma orelha alerta, outra ligada
O buraco do espelho está fechado
Agora eu tenho que ficar agora
Fui pelo abandono abandonado
Aqui dentro do lado de fora